O dia em que minha bateria acabou

Como sempre, atrasada. Estranho seria se não estivesse. Às pressas, coloco tudo aquilo que me parece importante na mochila. Abro a primeira música que aparece no celular. Coloco os fones de ouvido, reforço o rabo de cavalo, ralho com meu cachorro que acaba de sujar meu jeans claro com suas patas e me olha como se fosse abandoná-lo para sempre, assim que cruzo o portão de casa.

Aí então, inicio minha caminhada rotineira de dez minutos até o ponto de ônibus. Aproveito os últimos sinais de Internet de casa para checar as mensagens do WhatsApp, limpo as notificações do Twitter que preenchem toda a parte superior da tela e quando estou prestes a abrir o print que fiz dos horários que o ônibus sai da estação mais próxima, o Android me presenteia com uma tela preta e um lindo ícone azul circundante no visor. Seria lindo se não fosse trágico: minha bateria acabara de morrer bem ali, no meio do caminho.

Tentei reanimá-lo, mas em vão. Como seriam torturantes aqueles próximos minutos eternos até a próxima estação, onde eu ainda pegaria outro ônibus para chegar ao campus. Mas agora não adianta reclamar.

Cruzo a esquina e sigo caminhando, quando avisto um lindo céu azul. Límpido, sem nenhuma nuvem, ele contrasta com uma árvore de copa alta no fim da rua, de folhas verde oliva. Essa seria uma postagem perfeita no Instagram. Queria eu que meus olhos fotografassem nesse momento.

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O fascínio pela paisagem durou pouco: vejo o ônibus chegando lentamente na avenida e corro como um raio até o ponto de parada. A busca por ar dentro do veículo jurássico é feita tão alto que passageiros começam a me encarar como uma doida recém saída do sanatório.

Acomodo-me num dos únicos assentos disponíveis. Em dias normais, à altura de uma estação como essa em que o ônibus parou agora, morreria por um sinal de wi fi. E olha que por um momento eu até peguei meu celular, apertei a tecla do meio, já prestes a deslizar o dedo para o desbloqueio da tela. É quando aquela lâmpada se acende e me lembro que não tenho bateria. Essa mesma lâmpada acomete a todos, creio eu, quando por um momento de lerdeza, numa tarde sem energia, queremos fazer um sanduíche no microondas. E o subconsciente grita: “tá sem energia, seu tapado”.

A viagem prossegue. Na próxima parada, cerca de dez pessoas entram no ônibus. Não ligo muito. Como não tenho nenhum Snap para olhar, como os rotineiros ‘boa tarde’ de pessoas que não tem mais o que fazer, observo o movimento das ruas mesmo. Não percebo que, ao me esgueirar pela janela, estico minhas pernas e esbarro nos pés de alguém logo a minha frente.

“Desculpa”, dizemos em uníssono, após um sorriso amigável dele e uma abaixada de cabeça daquelas “Senhor me esconde…” de minha parte. Os poucos segundos que nos olhamos foram de encher os olhos (ou o pouco que ainda me resta deles). Alto, de cabelos e olhos castanhos em perfeita sintonia, usava blusa de banda (Iron Maiden se não me engano. É de morrer mesmo), pulseira de hippie e tinha a maior pinta de skatista. Logo que percebeu minha ‘sem graceza’ decidiu olhar para o outro lado. Encolhi-me na cadeira e decidi fingir um cochilo até que ele descesse. Eu e essa maldita timidez.

Após algumas milhares rotatórias, ele já havia partido. Pude então respirar aliviada. Falo assim como se tratasse de um psicopata. Mas eu que sou meio coisada mesmo. Tem dias que nem eu me entendo.

Ao passar em frente ao shopping, o ônibus parou e entraram mãe e filha, se acomodando nos assentos a meu lado. A garotinha devia ter lá seus dois aninhos e me encarava com seus olhos curiosos. Estendeu sua boneca, que cruzou o corredor até a minha direção. Ela tinha roupas engraçadinhas feitas de guardanapo. Toquei para sentir a textura delas e comprovar, o que foi reagido com uma cara amarrada e um sonoro: “Não, é minha!”. Sorri de lado para a mãe, que pediu desculpas. Apenas acenei com a cabeça, passando a observar a menininha, que de forma tão sublime cuidava daquela que intitulava filha, embalando-a no colo e cantando cantigas de ninar.

O ônibus chegou ao seu destino. Preciso agora pegar o próximo para chegar à faculdade, que por sinal já tinha algumas pessoas aglomeradas à sua porta. Entrei, me sentei e já estava me acostumando àquela situação. Porém, ao olhar ao redor, grande decepção: todos com suas cabeças baixas, cutucando o celular. Me entristeci e tive medo. Medo de minha bateria reviver e eu acabar como eles de novo.

Fiquei triste, pelo fato de todos eles deixarem de voltar seus olhos ao alto e contemplarem o lindo céu azul que pairava sobre suas cabeças durante todo o dia. Triste, pois muitos deles poderiam deixar o amor de sua vida descer na próxima parada, sem ao menos ter a chance de, por alguns segundos, encará-lo nos olhos. E não por um deslize humano, mas por não saber que o destino os havia encaminhado até ali, mesmo que por um curto espaço de tempo. E mais uma vez, triste, por sequer reservarmos um tempo para contemplar a beleza e a docilidade do outro, por querermos estar vinte e quatro horas antenados no mundo das notícias, querendo estar mais perto daqueles que chamamos de amigos, comunicando sempre às pessoas ‘o que estou fazendo’, ‘o que estou pensando’.

Neste fim, declaro: deixe sua bateria acabar de vez em quando. É libertador, leve, livre. E te garanto que vai valer à pena.

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Goianiense do pé rachado, sonhadora de pé no chão, Ana Gabriella Regis11139794_795672010509753_1188859606_n é acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins e ama o que faz. Independente da sua chuva de negatividades.



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