A Louca mente de Beija Flor – part. II

Ele, que era a alma viva de uma metamorfose ambulante, desfilava por ai com seus cabelos encaracolados tocando os ombros, depois aparecia com a cabeça raspada no um, e quando menos esperávamos, lá estava ele, exibindo um moicano. Ele, um rapaz jovem, com seus vinte e poucos anos, tinha o dom de tocar e cantar as dores e as alegrias para quem quisesse ouvir, com a habilidade de um velho que viveu tempo demais.

Quando ele aparecia com um violão, eu logo me sentava perto, pois não podia perder minha terapia mais eficiente, e ao meu lado, sempre havia um ou outro fazendo exatamente o mesmo. E ele, com suas tantas peculiaridades, apossava-se de seu grandioso palco, que às vezes não passava de um espacinho no centro de um bar, cantava e tocava com um olhar tão perdido, e que uma ou duas vezes se perdia no meu e se prolongava de uma maneira que eu verdadeiramente achava que aquela música do Seu Jorge que eu tanto gosto era dedicada pra mim, mas logo ele desviava o olhar com tal indiferença que me fazia acreditar que meus olhos tinham sido apenas mais um, de muitos os pontos em que ele permitia, mais uma vez, perder seu olhar.

Beija Flor sabia de tudo sobre tudo e ele conseguia provar que sabia mesmo não sabendo. Beija Flor era seguro em relação a todos. Mas Beija Flor era inconstante. Beija Flor amava incondicionalmente, isso é verdade, mas costumava não acreditar no amor que lhe era direcionado. Beija Flor era inseguro também, não acreditava ser suficientemente interessante, não importava quantas vezes eu repetisse que todas as garotas do bar olhavam pra ele. Beija Flor era um bom amigo, e conseguia aconselhar quem quer que precisasse de tais conselhos, mas quando se tratava dele mesmo, toda a sabedoria que lhe era atribuída se esvaía, e ele passava a ser um tolo qualquer.

Assim como a ave, ele procurava o néctar de todas as moças que ele conseguisse provar. E assim como a ave, ele não se demorava muito em uma única flor. Isso porque ele tem esse espírito livre, de não conseguir ficar por muito tempo, e é isso que compõe a beleza dele, é sua ida repentina e sua tão aguardada volta. Pois Beija Flor para fazer seu trabalho tem que voar, foi feito pra ser; em uma gaiola pássaro nenhum tem vontade de cantar.

Foto desenho Ana Vitória R. Cunha

Foto desenho Ana Vitória R. Cunha



Texto de Flavia Caixeta. Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins.

Cronista do Correio flaviaTocantinense. Gosta de ver a vida da melhor forma possível.



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