Caro doutor…

Foto Desenho: Ana Vitória R. Cunha

Foto Desenho: Ana Vitória R. Cunha

Ultimamente me engajei na missão de fazer todos os que estão a minha volta abrir os olhos e perceber o quão valiosa é a vida. A sua, a minha, a do seu vizinho, todas as vidas que não cruzaram a sua ainda, e todas aquelas que nunca cruzarão. Toda vida é valiosa. E quando não zelamos pela nossa, é fato que não zelaremos pela de ninguém. Partindo desse princípio, dou o único conselho adequado que me vem à mente exatamente agora: Se importe com sua vida!

Quero que se importem toda vez que respirar, e lembrem-se de que não vai ser para sempre; a vida geralmente ganha importância quando lembramos que ela é curta e rápida demais. Por isso, lhe dou mais um conselho: Não a viva com mediocridade, não a viva por viver, garanto que é a mesma coisa que a morte que tanto tememos. Tem tanta coisa bonita nesse mundo, e ainda assim, os olhos se fecham pra não ver, e não se tem o mínimo interesse em procurar. Tem tanta coisa bonita, e eu não aceito sair desse mundo sem ver pelo menos um pouco delas. Como pode você?

Como podem aceitar viver sem sonhos? Como podem aceitar apenas sonha-los? Como é que aceitam ficar parados? Tudo está se mexendo meu caro doutor, tudo está em constante movimento, como pode você se permitir o estado de inércia? Como você se permite viver em constante tristeza tendo consciência do que te faz feliz, do que te faz melhor, do que te faz ser tão você? Como podem não se importar?

Se eu tivesse a voz que todos pudessem ouvir, eu lhes diria para não aceitarem só o que está ao alcance das mãos. Se você tiver que pular, ou correr, ou até voar pra conseguir aquilo que quer, então voe, corra e pule e não pare até conseguir. Eu diria para não se acostumarem com a infelicidade, não aceitarem menos do que merecem, e não deixarem que os coloquem num lugar que não os pertencem.  E não tenho essa voz doutor, não tenho ainda.

E então doutor, o que eu tenho?

– Você se importa demais.

– E isso é ruim?

-Não. Só é raro.



Texto de Flavia Caixeta. Acadêmica de Jornalismo flaviana Universidade Federal do Tocantins. Cronista do Correio Tocantinense. Gosta de ver a vida da melhor forma possível.


Imperfeição

Concluí que não importa o quanto cresçamos, seremos sempre crianças. Crianças tolas, mimadas, inconformadas, cheias de vontades, cheias de sonhos, cheias de respostas e soluções. Concluí que não importa o quão maduros nos tornamos, sempre choraremos por dores bobas, dores fúteis, choraremos sem motivos, e não nos envergonhamos por isso. Não sentimos vergonha por chorar, por ser inconsequente, por fazer birra quando queremos algo, por ser ingênuos e acreditar na bondade das pessoas mesmo quando não praticada. Não nos envergonhamos pois somos apenas crianças.

Foto desenho Ana Vitória R. Cunha

Foto desenho Ana Vitória R. Cunha

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Dona Maria

Disponível em: tumblr.com

Disponível em: tumblr.com

Acordo e tenho a mesma rotina dos últimos três meses, banho, me visto, tomo café, pego as chaves, levo para trabalhar, trabalho, almoço, pago conta, resolvo problemas, chego em casa, janto, mexo no celular, durmo.  Esta pode ser à base de muitas rotinas que vivemos e observamos durante o dia. A quão automática está a sua vida? A quão menos humanizada está ela? Às vezes, tudo que precisamos, é de uma dona Maria em nossas vidas.

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Eu sou o perigo

Eu sou como uma maçã linda, vermelha, tentadora e envenenada, esperando uma grande mordida dos ingênuos arrogantes que acham que podem pisar em mim. “Deixe que venham”, é o que penso quando acordo e me deparo com uma matilha de lobos sedentos pela minha desistência ao olhar pela minha janela. Deixe que venham todos eles de uma vez, assim não vou perder meu tempo destruindo-os um por um.

Eu sou como a força de uma mãe solteira que mata mil leões por dia pra dar uma educação decente para seu filho, ensinando-o que nada nessa vida vem de graça, ensinando-o a ter força pra lutar pelo que se quer, ensinando-o sobre respeito e honestidade e ao mesmo tempo a se defender de tudo aquilo que o puxa pra baixo e mais pra baixo.

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Sobre escrever

Como num filme de fantasia, quando descobrem a fábrica de realização de desejos, ou quando encontram o pó mágico que faz com que tudo de mais magnifico aconteça, assim é escrever. Para mim pelo menos. Escrever é se apropriar de tudo aquilo que na verdade, não me pertence. E eu descaradamente o faço, e me aproprio repetidas vezes.

Sou minha própria terapeuta. O problema é que minha terapeuta é completamente louca. Ela é confusa, não sabe o que quer, mas o bom disso tudo é que ela sabe fingir muito bem que é exatamente o contrário. Eu sou cada um dos meus textos. Eu sou cada personagem. E sou nenhum deles também. Eu posso ser o que eu quiser basta que eu escreva. Basta que eu materialize em forma de palavras e BUUM, passa a ser real.

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A Louca mente de Beija Flor – part. II

Ele, que era a alma viva de uma metamorfose ambulante, desfilava por ai com seus cabelos encaracolados tocando os ombros, depois aparecia com a cabeça raspada no um, e quando menos esperávamos, lá estava ele, exibindo um moicano. Ele, um rapaz jovem, com seus vinte e poucos anos, tinha o dom de tocar e cantar as dores e as alegrias para quem quisesse ouvir, com a habilidade de um velho que viveu tempo demais.

Quando ele aparecia com um violão, eu logo me sentava perto, pois não podia perder minha terapia mais eficiente, e ao meu lado, sempre havia um ou outro fazendo exatamente o mesmo. E ele, com suas tantas peculiaridades, apossava-se de seu grandioso palco, que às vezes não passava de um espacinho no centro de um bar, cantava e tocava com um olhar tão perdido, e que uma ou duas vezes se perdia no meu e se prolongava de uma maneira que eu verdadeiramente achava que aquela música do Seu Jorge que eu tanto gosto era dedicada pra mim, mas logo ele desviava o olhar com tal indiferença que me fazia acreditar que meus olhos tinham sido apenas mais um, de muitos os pontos em que ele permitia, mais uma vez, perder seu olhar.

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A louca mente de Beija Flor.

“- E se eu não conseguir?”, ela me perguntava vez por outra.  “- E se eu tiver medo?”.  Ela, que chamarei aqui de Beija Flor, insistia numa fraqueza que não tinha. Insistia num medo que não sentia. Agarrava-se á uma insegurança que não era dela. Ela é confusa, me permito dizer. Ama a natureza, mas possui um medo de si mesma que às vezes me parece incontrolável, e às vezes, me parece que nem existe.

Beija Flor é de fases. De momentos. À noite vira criança, com a mente derretida por um doce que amarga em sua boca. Ela sorri, e a gente sorri junto pelo simples fato de que ela exala alegria. Mas quando resolve derramar suas lágrimas, todos ao seu redor se vê chorando, dividindo com ela as mesmas dores, embora ninguém saiba o que se passa naquela cabeça.

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História repetida

Era uma vez, num reino não tão distante, uma princesa solitária, que vivia em sua cabeça um conto de fadas imaginário. Por sorte ela esquecia sua solidão vez por outra, quando mergulhava tão profundamente na fantasia construída por ela. “Eu sou feliz”, ela dizia, sem saber que a felicidade que encontramos geralmente é vivida, e não imaginada. “Eu não preciso de mais ninguém”, ela insistia sem se dar conta de que todas as lágrimas derramadas involuntariamente partiam de seu coração, que de tão vazio transbordava.  “Eu sou feliz”, ela reforçava, sem acreditar nem por um segundo em suas palavras.

Um dia, ao passear pelo bosque de seu reino, ela resolveu ir mais adiante, mais distante, pois depois de todo o sentimento reprimido, ela se deu uma chance de ir descobrir novos caminhos. Encontrou flores que nunca tinha visto, e se viu em animais assustados, que fugiam dela, que se tornou uma completa intrusa. Viu-se sempre fugindo dos intrusos, que assim como ela, eram inofensivos.

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Não posso ficar

Sob a sombra de uma árvore num lugar qualquer, um casal se abraçava e se enroscava nas promessas feitas um para o outro.

-Promete que vai ser pra sempre?

-Eu prometo.

Ele queria que o pra sempre fosse uma promessa, e foi o que ela lhe deu. Ela prometeu acreditando do fundo de seu coração em sua promessa e ele acreditou cegamente que ela seria cumprida, e enquanto se abraçavam sob a sombra daquela árvore, abraçavam também o futuro tão bem planejado, e que por sua vez, se tornava tão incerto.

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Sobre uma coisa chamada viver

Já começo te informando que está cada vez mais difícil viver. Percebo-me morrendo todos os dias com cada inocente, com cada criança, com cada pessoa que estava se empenhando em viver mais do que eu, e ainda assim, aqui estou, dispondo de um bem tão precioso e me fingindo de morto. Reconheço que os motivos pra morrer são sim, bem convincentes, basta olhar em volta, assim como também olhando em volta é possível facilmente ver por qual motivo vale a pena viver.

E com tantos motivos pra se viver, vejo gente só existindo. Eu mesmo, por exemplo, morro todos os dias, me convencendo de que sim, meus motivos são válidos e que sim, minha dor tem que ser sentida, e já que é pra sentir dor, acabo me apropriando das dores alheias, que é pra doer tudo de uma vez. Convenço-me de que sim, minhas rotineiras mortes são nobres, mas acontece que não há ninguém pra reconhecer minha nobreza pois, ou estão ocupadas demais tentando viver ou procurando motivos pra morrer, assim como eu às vezes.

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Foto Desenho Ana Vitória R. Cunha

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