A louca mente de Beija Flor.

“- E se eu não conseguir?”, ela me perguntava vez por outra.  “- E se eu tiver medo?”.  Ela, que chamarei aqui de Beija Flor, insistia numa fraqueza que não tinha. Insistia num medo que não sentia. Agarrava-se á uma insegurança que não era dela. Ela é confusa, me permito dizer. Ama a natureza, mas possui um medo de si mesma que às vezes me parece incontrolável, e às vezes, me parece que nem existe.

Beija Flor é de fases. De momentos. À noite vira criança, com a mente derretida por um doce que amarga em sua boca. Ela sorri, e a gente sorri junto pelo simples fato de que ela exala alegria. Mas quando resolve derramar suas lágrimas, todos ao seu redor se vê chorando, dividindo com ela as mesmas dores, embora ninguém saiba o que se passa naquela cabeça.

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Tomorrowland

Na minha infância, todos os meus primos gostavam de brincar de coisas realistas, que fisicamente estivessem ali. Eu nunca fui muito chegado na realidade. Por isso meus primos não gostavam das minhas brincadeiras, que envolviam a imaginação, porque na verdade era muito difícil para eles imaginarem as coisas. Embora a realidade nunca se aproxime de um mundo utópico criado mentalmente, há brechas para que isso aconteça, e foi exatamente isso que permitiu que Casey Newton descobrisse Tomorrowland.

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História repetida

Era uma vez, num reino não tão distante, uma princesa solitária, que vivia em sua cabeça um conto de fadas imaginário. Por sorte ela esquecia sua solidão vez por outra, quando mergulhava tão profundamente na fantasia construída por ela. “Eu sou feliz”, ela dizia, sem saber que a felicidade que encontramos geralmente é vivida, e não imaginada. “Eu não preciso de mais ninguém”, ela insistia sem se dar conta de que todas as lágrimas derramadas involuntariamente partiam de seu coração, que de tão vazio transbordava.  “Eu sou feliz”, ela reforçava, sem acreditar nem por um segundo em suas palavras.

Um dia, ao passear pelo bosque de seu reino, ela resolveu ir mais adiante, mais distante, pois depois de todo o sentimento reprimido, ela se deu uma chance de ir descobrir novos caminhos. Encontrou flores que nunca tinha visto, e se viu em animais assustados, que fugiam dela, que se tornou uma completa intrusa. Viu-se sempre fugindo dos intrusos, que assim como ela, eram inofensivos.

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Metanoia

Vou contar pra vocês que fiquei muito desapontado pela escassa quantidade de filmes brasileiros que são produzidos. A maioria envolve comédia e é raro encontrar um filme como O Vendedor de Passados (2015) que possui um gênero raro no Brasil. Infelizmente este filme não veio para Palmas, mas eu fui agraciado por um outro lançamento, com gênero raro, nas telas palmenses. Isso me fez lembrar de alguém muito próximo a mim, aliás, todos que assistirem este filme lembraram de alguém.

Eduardo (Caique Oliveira) é mais um em meio aos milhares de usuários regulares e dependentes do crack. Criado na periferia de São Paulo, a boa educação oferecida por sua mãe, Solange, não o impediu de ficar preso no mundo das drogas. Ele fica perdido em meio à autodestruição, enquanto Solange tenta desesperadamente salvar o filho do vício.

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Meu amigo Pedro

Pedro nasceu em um dia qualquer, ás 16 horas daquele dia comum. Cresceu em um bairro meia-boca. Era o mais comedido do grupo de garotos da rua de baixo. Não conseguia se impor em nada. Nunca conseguiu ser herói de ninguém, nem dele mesmo. Tão menos soube ser vilão. Não sabia articular a sua vontade acima de algum pudor, moral ou qualquer outra coisa suja, feia, desrespeitosa. Não que fosse correto, também não era, mas se atrapalhava nos conceitos. Confundia maus modos com maldade. Dava a mesma importância dos advérbios aos adjetivos com a ingenuidade de moleque. Foi insuficiente em tudo, mas não percebeu, pois fazia parte do elenco principal da sala de estar. O prognóstico de anti-heroi veio quase que sem querer. Talvez ficasse feliz se soubesse que Dom Quixote não faria melhor, mas achou por bem não arriscar comparações. Evitavam guerras entre cavalarias e possíveis check-ins em alguma rede social. Estrategicamente os tempos eram outros.

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Rotina

Acordo às seis. Higienizo-me. Tomo café da manhã. Pego o ônibus. Chego ao trabalho geralmente atrasada. Sento-me em frente a um computador por 6 horas, salvo a pausa para almoço e às duas da tarde volto pra casa. No caminho, fones de ouvido, viajando nas músicas da minha lista de reprodução, imaginando histórias que eu poderia viver e as infinitas coisas que eu poderia fazer, me deixando levar pelo êxtase do som do saxofone em uma música, pelo choro de uma gaita em outra, por solos de guitarra e pelo baixo maravilhosamente tocado nas músicas da banda Cage The Elephant. Logo meus devaneios se acabam, está próximo o ponto em que desço do ônibus. Mas logo os devaneios começam novamente e me pego cantando no caminho que sigo a pé para casa. Às veze um ou outro ouvem meu canto reprimido e tímido, mas eu não me importo, sigo cantando mesmo assim. Enfim chego em casa, cheia de planos. Preciso lavar minha roupa, meu all star surrado por excesso de uso, continuar com o livro que comecei a ler, dar uma olhada nos conteúdos da faculdade, me preparar pra ir correr na praça para que assim minha consciência não pese tanto por comer as porcarias que tanto amo, escrever as coisas que martelam em minha cabeça e que me parecem realmente geniais, mas só enquanto continuam na minha cabeça. Tudo por agua abaixo. Ao chegar em casa, me livro das roupas que me sufocam, bebo água, olho em volta pensando em tudo que tenho que fazer e a única coisa que enxergo é minha cama, no cantinho direito do quarto, me olhando nos olhos e me dizendo que se eu permitir, tudo vai ficar bem. Não penso duas vezes. “É só por 5 minutinhos”, digo a mim mesma, com a consciência de que no dia anterior eu tinha dito a mesma coisa, e acordado as oito da noite, tentando lembrar dos estranhos e rotineiros sonhos que me visitam toda tarde. E como o previsto não dá outra. Acordo as cinco da tarde, olhando em volta e me lamentando que é tarde demais pra fazer o que eu tenho que fazer, e decido que vou deixar pra fazer amanhã. Mas eu já sei o que vai acontecer amanhã. Eu vou inventar a mesma desculpa e vou fazer as mesmas coisas, jogando minhas responsabilidades pra um amanhã que sei que vai ser o mesmo. Passo a noite deitada, ouvindo música ou assistindo pela sexta vez um filme qualquer que tenho salvo em meu computador. Tomo banho, como alguma coisa, escovo os dentes, e vou pra cama de novo, só que desta vez estou de pijama. Durmo e sonho que faço coisas incríveis. Sonho que busco novos lugares, vivendo novas aventuras, como exterminar zumbis com meus amigos, que sempre estão presentes. Sonho que faço algo. Algo importante, divertido, diferente.

Tristemente concluí que vivo sonhando com a vida, enquanto durmo pra ela.

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A Ditadura da Beleza e as vitimas opressoras

O padrão de beleza evoluiu ao longo dos séculos, ao deixar de ser um recurso unicamente de reprodução para se tornar ostentação de imagem e status social. A beleza cobrada no mercado social é fabricada artificialmente, no qual as pessoas acreditam que tal beleza possa garantir sua felicidade. Isso faz com que as pessoas se desviem da principal beleza, a interna.

Os gregos foram os primeiros a esmerar-se com a beleza, Afrodite e Narciso, são as melhores representações do que é belo e perfeito na mitologia grega. Os padrões de beleza moldam-se com o tempo, e podem tornar-se uma ditadura, na medida em que cobram mais do que se pode fazer.  Ao aceitar as injunções impostas pela sociedade, automaticamente as pessoas se corroboram com tais imposições, e buscam incessantemente pela presença e aparência notada, a fim de serem consumidas, de alguma forma, pelos interesses alheios. Sem perceber que ao valorizar somente o aspecto exterior, o interior adoece, preenche-se assim o vazio do aspecto interior com o aspecto exterior.

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Não posso ficar

Sob a sombra de uma árvore num lugar qualquer, um casal se abraçava e se enroscava nas promessas feitas um para o outro.

-Promete que vai ser pra sempre?

-Eu prometo.

Ele queria que o pra sempre fosse uma promessa, e foi o que ela lhe deu. Ela prometeu acreditando do fundo de seu coração em sua promessa e ele acreditou cegamente que ela seria cumprida, e enquanto se abraçavam sob a sombra daquela árvore, abraçavam também o futuro tão bem planejado, e que por sua vez, se tornava tão incerto.

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A meia-noite dos tambores silenciosos

Já brinquei de dublar cantoras cafonas para o meu pai dar a nota final. Um amigo e eu já demos uma volta a mais no quarteirão com os vidros da janela do carro baixados só porque a próxima faixa do cd era “Bette Davis Eyes” e canções como essa exigem vento na cara. Eu já quis ser a mocinha do filme. Eu chorei quando o Spit (personagem do Takeda) conta a morte da sua mãe. Eu já brinquei de bilboquê numa exposição do artista plástico Julio Villani e achei divertido e poético. Eu já liguei pra’quele garoto lindo só pra ouvir sua voz e desliguei (e que falta faz a ausência dos celulares e dos identificadores de chamada nessas horas?!!!). Eu já tive uma pista de dança só pra mim ao som de “The Killing Moon”. E já tive um dj só pra mim. O mais requisitado. O mais importante da noite.

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Entre Abelhas

Ultimamente tenho refletido sobre como as coisas mudaram nos últimos anos, especialmente nas minhas amizades. Todos os amigos que eu fiz nos tempos de ensino fundamental e médio simplesmente desapareceram. Com o tempo, a vida foi fazendo eles seguirem outros caminhos e assim nos distanciamos. No feriado do dia do trabalho eu aproveitei para ir a Marabá ver minha mãe, já que não poderia vê-la no dia das mães. Fiquei impressionado com a quantidade de amigos que foram embora de lá. Todos desapareceram. Assim como as pessoas desapareceram para Fabio Porchat em Entre Abelhas.

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